Vozes Masculinas

Na Ética a Nicômaco, Aristóteles fala do sumo-bem. Bela reflexão esse ensaio clássico deixa para a posteridade. Quanta sabedoria sobre o comportamento ético, o amor, a amizade!! Ah a amizade! Que presente! Tonificante para nossa mente é saber que esses valores foram incutidos pelo pai do filosofo, a quem o filho fez, com essa obra, a bela homenagem…

“Queria ser filho de Aristóteles”, alguém poderá desejar, parodiando, sem saber, o filósofo, ao ler o louvável presente do patriarca ateniense à filosofia. Um deles sou eu. Não é normal em mim tanta cobiça! Mas assim é o desejo recôndito de alcançar a felicidade. Não existe nada mais desejado e ambicionado… almejado por todos em todos os tempos. E nessa sequência pergunto: já ousou alguém, em alguma era, dissertar acerca de uma garantia para a felicidade? De uma medida para aquilatar esse sumo-bem? Ou de um modo de aproximar-se dele? Sem receita nenhuma que garantisse aos antigos esse trunfo, esparsas e enevoadas alusões a um certo comportamento são registradas em compêndios de história da filosofia, dando conta de como procederam para esse fim, tanto os  estoicos e gnósticos, agnósticos e céticos, além de filosofias e religiões especialmente as orientais… Bom, o nosso tempo…!!!

Chegamos ao nosso tempo. A nossa época esmerou-se para esse fim, ou seja, para encontrar essa exuberância que plenificava a vida do homem antigo, no despojamento…

Nosso tempo quis alcançar a felicidade com o progresso, com a tecnologia… Ora, vejam só…!!! Bela ironia!!! Nossos cientistas encontraram na tecnologia a ferramenta – assim parecia à ciência – adequada à busca do bem-estar, ou nas palavras de Aristóteles, ao sumo bem

…e com todo o refinamento, e armas de que dispôs com o conhecimento, se alcançou a comodidade, e a dourou de um requinte e luxo extremos…era seu papel… Assim entendia.

A comodidade se instalou na civilização em seu estágio avançado, pensando-se com ela, alcançar a felicidade. Mas teria a felicidade a ver com o bem-estar?

E… ainda teimando em receitas, cânones e filtros mágicos, entre os antigos, isto é,  retomando os primórdios da palavra falada e escrita, façamos ainda  uma reflexão, para indagar:   galgou-se, por ventura um passo que fosse, do suposto bem-estar à felicidade, na reflexão de um clássico, além dos sábios preceitos através de phronesis, sofrosines, katekon, katortomas, éticas e estéticas?  Não. Porque eles mesmos, os sábios, sabiam que a medida era misteriosa, indizível…

Não se instalaria essa receita em superfícies oscilantes e menos cogitadas? E não caberia ela, a cada vivente, como um selo mágico, um timbre, ilegível a outros? E caso fosse um enigma, não seria dado só a ele conferir, como uma oferenda, uma dádiva dos céus?  E por mais tarde que fosse, não caberia somente a ele, a seu modo, a descobrir?

Bom, convenhamos. A infância não sabe que é feliz.  Nisso concordamos.

Mas, à minha memória, acredito que ela foi presenteada na entrada da fase adolescente. Minha família, fosse pelo pretexto de minguadas posses (que hoje avalio ser o artifício para dilatar vivências fora da cidade), tinha o costume de levar a criançada em idade escolar, no período de férias, à casa dos avós paternos. A cada semestre, findas as aulas, a caravana de crianças era conduzida de trem pelo desfiladeiro do Itapaí, em direção a Caio Prado. Com abismo de um lado e do outro, a experiencia da viagem pela linha férrea que arrancava gritos e provocava medo e o friozinho da barriga, era única. Sorvia-se essa magnitude junto as uvas sumarentas, vendidas em cestinhas trançadas e apregoadas por meninos de pés nus, nas paradas obrigatórias de Guaiúba e Redenção, Capistrano e Baturité. Na parada final avistávamos com nosso pai, o tio, já aguardando o irmão e os sobrinhos. Com ele e a tia anfitriã, seguíamos rumo a Fazenda na caminhoneta, adquirida após a Segunda G. Guerra por minha avó e conduzida com a segurança que desafiava as enchentes medonhas do Cangati e o lamaçal da estrada de barro, não sem a advertência histérica da tia de que tivesse cuidado….

Não que aquele período ali fosse o paraíso. Ressentia-se da falta de atividade lúdica do colégio, dos meninos briguentos da vizinhança, da região litorânea da nossa casa, praia e ondas espumantes brilhando ao sol, do escorregar na areia fina das dunas com a tábua parafinada por papai, dos filmes do Cine São Luiz, das aulas de piano, das audições, do circo….e no tempo de carnaval, do desfiles dos Maracatus de cara entisnada e cadência soturna, das mágicas do palhaço pimpão, dos blocos de Canelau engraçado, e brincadeira dos arruaceiros que pastoravam dançando nossa calçada e jardim, e a quem papai oferecia alguma moeda polida; Mariana gostava de agradar ao papai areando as moedas que encontrava no bolso da sua calça, ao lavar ….

Já na Fazenda, na hora de dormir, vovó retirava dos baús a rede lavada à beira da lagoa e corada sobre alguma erva aromática, fosse alfavaca ou bamburral cheiroso, menta…. O pano alvo retinha algum cheiro bom d´ água-pé, que recendia ao cobrir a superfície da lagoa, em Junho.    

Em uma dessas noites mergulho em um tempo de sonho, não por feitiço ou entorpecente.  Foi o despertar para as vozes masculinas que habitavam o quarto ao lado. As vozes se elevavam e baixavam num sussurro. Contavam os eventos do dia-a-dia. Dissertavam sobre os afazeres masculinos, colhiam e

sulcavam a terra. Falavam nos trabalhadores, meninos curados, impaludismo e na alimentação, davam conta das promissórias pagas, dívidas restantes, sacas de café trazidas da serra no lombo dos jumentos. As vozes iam dando conta das obrigações, responsabilidades de meu pai e tios em manterem as atividades em dia. A percepção adolescente não se atinha muito ao conteúdo, mas à sonoridade dele, encantadora. E à  sua harmonia perfeita. Como em uma melodia, as vezes aparecia uma dissonância para um efeito mágico.

Por isso quando comecei a decifrar as letras e juntá-las num sentido, me pareceu bastante estranho esse refletir sobre a felicidade pelo pensamento, apenas capaz de definir um objeto.  A felicidade não se dizia, se sentia, ela envolvia a alma da gente como um lençol felpudo, acariciava, entranhava os sentidos, entorpecia de sonoridade, abalava com a emoção, para depois acalmar o coração com a segurança de que tudo estava certo e nada mudaria.

Ela não recitava sobre o amor, a saúde, honra ou paz. Ela sabia da necessidade, continha as essências dessas coisas, porque conhecia a expectativa e nela aninhava seus ovinhos, para fazê-los eclodir em ninho fofo e quente.

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