Devia ter de dois anos e meio pra três de idade quando o monstro surgiu na nossa existência de criança. Ouvíamos o seu rugido de longe principalmente nos dias de muita chuva. Desse tempo guardo a lembrança de me enfiar em uma rede e tapar os ouvidos com um travesseiro bem denso para não escutar seu rugido.
Nossos pais haviam se mudado para uma residência aconchegante, de compartimentos amplos em um bairro arejado.
Logo que chegamos me lembro de brincar na frente da casa sem calçamento, com a areia solta e fofinha, que logo se tornou o elemento da criançada. Às vezes deixava que meus pés penetrassem o seu calor aconchegante à noitinha, escondendo isso de mamãe que obrigava todo mundo enlameado a tomar banho antes de dormir
– Para o chuveiro, meus porquinhos cor de rosa! Todo mundo deixava a areia com saudade, que provavelmente revoltada, soprava, à noite dentro dos dormitórios, com certeza nos procurando.
Nossa casa, emparelhada a outras, não possuía terreno nas laterais. Um convite às traquinagens era o quintal, bem cumprido e com touceiras de murici, uma plantinha de caroços amarelos que davam um refresco pastoso, metade doce, metade azedo. Ao lado da mata dessa delícia cresceram coqueiros e uma pitombeira frondosa de galhos fortes, onde papai pendurou um balanço que ele próprio fez lixando bem a tábua do assento para as felpas da madeira não espetarem as pernas das três crianças. Era esse o universo de brincadeiras sem fim varando noite adentro, quando o corpo bambo de sono era levado ao banho morno de banheira.
A areia era nossa cúmplice. Se a gente a encharcava sobre o pé descalço, ao retirá-lo, logo aparecia uma caverna, ou se a criançada fazia nela um buraquinho com o calcanhar logo a bolinha de gude escorregava para a vitória. Essa nossa amiga era munição para batalhas, mas lançar o arisco solto chegava a ser uma infração ao código de guerra. Um menino pequeno foi levado com os olhos vermelhos e inchados de lacrimejar ao Pronto Socorro. E a mãe censurada de descuido pelo médico plantonista. Por isso era preciso se estar seguro das regras antes de começar o jogo. Engasgar-se com caroço de pitomba também aconteceu, e a proibição de chupar pitomba enquanto se corria passou a ser obedecida com frequência. Mas a pena maior era pra quem desobedecesse ao regulamento expresso de não ultrapassar o portãozinho de madeira do quintal, que dava para fora. Atrás dele morava o tal monstro devorador. Um primo que nos visitara nessa primeira semana já informado da existência do bicho e da proibição tentou escalar o coqueiro além da altura do muro. A encomenda, em troca de doce de goiaba, era informar de tudo ao vê-lo rosnando ou espumando de raiva. O sacrifício foi grande pois o coqueiro estava liso com a chuva. O menino escorregava e subia uns centímetros outra vez e de repente caia de novo, tentava, longe da vigilância dos adultos, mas por fim só conseguiu raladuras nas pernas que teve que esconder dos pais junto com a dor. E, decepcionado, abandonou o local da brincadeira. Para os que ficaram cada dia que passava trazia a curiosidade maior. A chave do portãozinho brilhava no seu chaveiro azul pendurada no claviculário do hall separando sala de jantar e cozinha -uma tentação. Aquele chaveiro apelava de todas as formas com seu brilho, ou seu tilintar ao vento como sininhos da felicidade proibida. Nunca tomei tanta água na vida pois a pretexto de passar por ele, ia ao filtro, ao lado da geladeira, onde escorreguei e cai sobre o líquido derramado. Depois, passada a dor da queda resolvemos com os irmãos um plano que se vislumbrava infalível. O jeito de ver o monstro que espumava e rugia era fazer um buraquinho na madeira do portão. Papai tinha uma caixa de ferramentas na área de serviço em frene ao seu armário de preciosidades para artesanato: puas, limas, serrote, torquês, alicates, sovelas e lixas. Esmerei-me em perguntar ao meu pai a função de cada um daqueles instrumentos. E ele, surpreendido pela curiosidade da filha, ria, contando a minha mãe o interesse repentino. Mas a explicação exigia o domínio de muitas palavras e o uso me pareceu complicado. Além de exigirem habilidade. Abandonei a pesquisa e resolvi lançar mão do método e do ralo conhecimento que tinha à mão. Talvez desse certo. Seria questão de sorte. Passei um dia inteiro elaborando o plano. E contei o resultado aos meus irmãos. Peguei uma faquinha quebrada que alguém abandonara no quintal com que há tempo escavacava o chão a procura de uma botija que a Ba me segredara. Sem que ninguém visse comecei a ralar com ela, a pintura do portal no sentido vertical. Meus irmãos paravam de correr me observando de longe.
-O que estarão fazendo essas crianças tão quietas, madrinha Carmen, indagava, desconfiada, nossa Bábá.
Numa noite de lua cheia pude ver parte do monstro por meio da pequena fresta. Não era feio.
Ao contrário, lindo e cintilante e tinha um jeito de se enrolar, brilhando à lua da lua que dava vontade de abraçá-lo. Nessa noite demorei a dormir segurando a emoção de contar aos irmãos pequenos a descoberta. E no café da manhã não segurei mais:
– Mamãe, não tenho medo do monstro.
-Ah ! Não? Perguntou minha mãe sorrindo.
Era um dia de Sábado, folga do trabalho. Há uma semana estávamos ali. -Então vamos à praia, disse papai! E com óculos escuros, um guarda-sol embaixo do braço, conduziu a gente através do portãozinho para a areia banhada pelo nosso lindo monstro espumante que banhava as pedras formando do outro lado, quase no quintal da nossa casa, laguinhos de águas tranquilas. Mergulhar nelas é o maior presente da casa à beira-mar.



